E se alguns dos pequenos pontos vermelhos observados pelo telescópio James Webb fossem sinais de buracos negros gigantescos em seus primeiros estágios de crescimento? Uma descoberta extremamente distante, chamada MoM-BH*-1, pode ajudar os astrônomos a investigar esse mistério e compreender melhor como surgiram os primeiros grandes buracos negros do Universo.

Imagem do aglomerado de galáxias Abell S1063 com destaque para o objeto GLIMPSE-17775 observado pelo James Webb.
Um pequeno ponto vermelho observado pelo James Webb, em destaque na imagem do aglomerado de galáxias Abell S1063. GLIMPSE-17775 é um objeto diferente de MoM-BH*-1, mas oferece pistas sobre o mesmo problema científico.
Créditos: NASA, ESA, CSA, Vasily Kokorev (UT Austin); processamento: Alyssa Pagan (STScI).

Uma descoberta no Universo jovem

Com o auxílio do Telescópio Espacial James Webb (JWST), os pesquisadores identificaram MoM-BH*-1, um objeto que existia quando o Universo tinha menos de 660 milhões de anos. Considerando que o cosmos tem aproximadamente 13,8 bilhões de anos, estamos observando uma fase extremamente antiga de sua história.

O objeto é descrito como uma black hole star, expressão que pode ser traduzida como “estrela de buraco negro”. Não se trata de uma estrela convencional, mas de um cenário no qual um buraco negro em crescimento estaria envolvido por uma grande quantidade de gás, que brilha à medida que a matéria é aquecida.

Essa região luminosa funciona como uma espécie de cortina cósmica. Os astrônomos não observam diretamente o interior do buraco negro: eles estudam a luz emitida pelo gás ao redor e procuram sinais que revelem a natureza desse sistema.

Por que isso importa? Investigar possíveis buracos negros em seus estágios iniciais pode ajudar a explicar como esses objetos conseguiram acumular tanta massa quando o Universo ainda era muito jovem.

O mistério dos pequenos pontos vermelhos

Desde o início das operações científicas do James Webb, em 2022, os pesquisadores vêm encontrando pequenos objetos avermelhados nas regiões mais distantes do Universo. Conhecidos como Little Red Dots, ou “pequenos pontos vermelhos”, eles são compactos e brilhantes, mas sua natureza não foi imediatamente compreendida.

Seis exemplos dos pequenos pontos vermelhos encontrados em levantamentos do James Webb. Os pesquisadores investigam se muitos desses objetos abrigam buracos negros em crescimento.
Créditos: NASA, ESA, CSA, STScI, Dale Kocevski (Colby College).

Uma das principais explicações é que muitos desses objetos abriguem buracos negros em rápido crescimento, envoltos por densas nuvens de gás. A matéria aquecida ao redor desses buracos negros emite luz que pode ajudar a explicar a aparência observada pelo telescópio.

MoM-BH*-1 oferece uma pista adicional para investigar como esses sistemas podem evoluir. Os modelos propostos pelos pesquisadores sugerem que objetos desse tipo podem, ao longo do tempo, se associar a galáxias em formação e contribuir para sistemas que apresentem características semelhantes às de alguns pequenos pontos vermelhos.

Isso não significa que todos esses objetos tenham a mesma origem. A população dos pequenos pontos vermelhos ainda está sendo investigada, e diferentes sistemas podem apresentar características distintas.

Como a luz revela o que está escondido?

Para compreender objetos tão distantes, os astrônomos analisam não apenas sua aparência, mas também o espectro da luz que chega até nós. Essa técnica permite identificar assinaturas de elementos químicos, temperaturas e movimentos do gás, ajudando a distinguir entre diferentes explicações possíveis.

Representação de dados espectrais utilizados para investigar o gás quente e denso em torno de um possível buraco negro.
A análise espectral ajuda a testar hipóteses sobre a composição e as condições físicas do gás que envolve objetos distantes.
Créditos: NASA, ESA, CSA; Vasily Kokorev (UT Austin); Leah Hustak (STScI).

Ao combinar essas informações com modelos físicos, os cientistas conseguem avaliar se a luz observada é compatível com um buraco negro em crescimento, com uma população de estrelas ou com outro tipo de sistema astronômico.

O que isso muda na Astronomia?

Um dos grandes desafios da Cosmologia é explicar como buracos negros supermassivos conseguiram crescer tanto quando o Universo ainda era muito jovem. Encontrar possíveis etapas iniciais desse processo ajuda os pesquisadores a testar hipóteses sobre a formação dos primeiros buracos negros e a evolução das galáxias.

O James Webb foi desenvolvido, entre outros objetivos, para investigar esse período remoto. Ao observar a luz infravermelha de objetos extremamente distantes e analisar seus espectros, o telescópio permite estudar as condições físicas do gás no Universo primordial.

MoM-BH*-1 e os pequenos pontos vermelhos são objetos que ajudam a investigar questões relacionadas, mas não devem ser confundidos. Cada descoberta precisa ser avaliada a partir de suas próprias observações e evidências.

Ainda há perguntas em aberto. Como esses buracos negros se formaram? De que maneira acumularam massa tão rapidamente? E quantos dos pequenos pontos vermelhos escondem buracos negros em crescimento? Novas observações serão fundamentais para avançar nessas respostas.


Fontes e referências científicas